A história do bolinho de chuva

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Sente o cheirinho de açúcar e canela?

Quando os pingos de massa chiam no óleo quente da panela, toda a gente da casa se aproxima do fogão. Depois de dourados e escorridos, a brincadeira é empanar e perfumar todos eles em açúcar e canela. Já reparou que bolinho de chuva nunca aparece sozinho? Vem sempre aos montes, multiplicado, porque é para ser servido com fartura, já que todo mundo repete até não sobrar mais nenhum.

Uma declaração de amor para uma fórmula antiga da culinária caseira feita com açúcar, ovos, farinha e leite. Não é bolo. É carinhosamente um bolinho muito fofinho. E, embora seu nome o restrinja aos dias de chuva, todo mundo sabe que a guloseima tem passe livre para ser apreciada em qualquer tempo, independente das condições meteorológicas. O quitute também não escolhe idade. Alegra na infância e faz os adultos regressarem a ela em apenas uma mordida.

No Brasil do final do século XVIII, muitas receitas tinham como ingredientes de base a mandioca ou o cará, pois naquela época o trigo era caro, vinha de Portugal com o nome de “farinha do reino”. “Isso pode ser um indício de que o bolinho de chuva, tal qual conhecemos hoje, só veio anos mais tarde, com a popularização do trigo em meados do século XIX,  e vemos também na massa deste docinho certa semelhança com a massa do sonho, tradicional item da doçaria portuguesa.  O folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) faz menção a essa herança culinária em sua obra História da Alimentação no Brasil. Ele descreve que os sonhos ficavam na bandeja cercados pelas ondas de açúcar fino e de canela em pó. A diferença é que os sonhos portugueses tinham recheio. A mesma obra anota que quitutes desse tipo não nasceram propriamente das sinhás. Eles saíam das mãos das escravas e por isso chegaram a ser chamados “bolinhos de negra”. Da cozinha, foram parar nos tabuleiros, quentinhos e embalados em folhas de bananeira. Com o tempo, virou receita popular, com ingredientes sempre à mão.

O bolinho de chuva mais famoso

Tia Nastácia dizia: “nasci no fogão e no fogão hei de morrer”. A simpática personagem criada pelo escritor Monteiro Lobato era uma cozinheira de mão cheia. Entre outros pratos, ela tinha um jeito tão especial de preparar bolinho de chuva que acabou eternizando-o nas histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Narizinho, Emília e Pedrinho se fartavam. Até o Minotauro, monstro mitológico que aparece em um dos episódios da série, se rendeu aos caprichos de Tia Nastácia: “Pegou um, e outro e outro, e comeu a peneirada inteira. Depois me apontou para o fogão num gesto que entendi que era pra fazer mais (…). Acabou completamente manso, esqueceu até a mania de comer gente (…). Pois é, foi o bolinho que me salvou”, suspirou a cozinheira depois de ser libertada do labirinto do monstro.

Quando lhe pediam para contar o segredo, ela avisava: “Receita, dou; mas a questão não está na receita – está no jeitinho de fazer”.

Veja como fazer deliciosos bolinhos de chuva!

Onde encontrar cafés e chás especiais

Para adquirir café especiais:tipos-de-cafe

Café do Mercado  -Lojas

www.cafedomercado.com.br

Galeria Mercado Público – Banca F – Quadra II Centro Histórico – tel (51) 3224.2890
Trav. Acilino de Carvalho – Borges de Medeiros, 453 loja 8 – tel (51) 3286.5037
Shopping Praia de Belas – Cafeoteca Café do Mercado
Av. Praia de Belas, 1181, primeiro piso – tel (51) 3232 2233

Baden Cafés Especiais www.badencafe.com.br
Av. Jerônimo de Ornelas, 431 – Santana tel (51) 3209-7427

On Line

William & Sons Coffee Company
http://williamsonscoffeecompany.nuvemshop.com.br

Suplicy Cafes Especiais http://loja.suplicycafes.com.br

Martins Café http://www.martinscafe.com/loja

Mazzi Café http://lojamazzicaffe.com.br/

Para adquirir chás sensacionais: chá a granel

Teeladen A Loja do Chá na Loja Energia Vital www.lojadocha.com.br
Rua 24 de Outubro, 1280 – tel: (51) 3328.3313- (51) 3328.8068- (51) 3334.9930

El Té   www.elte-casadechas.com/
Rua 24 de Outubro, 111 Loja 35 – tel: (51) 3517-9255

Tea Shop Iguatemi –Shopping Iguatemi www.teashop.com.br/iguatemi-porto-alegre/
Praça de Eventos Érico Veríssimo
Av João Wallig, 1800

Tea Shop Padre Chagas www.teashop.com.br/tea-shop-padre-chagas-porto-alegre/
Rua Félix da Cunha, 1215

Mercado Público ( bancas que vendem erva-mate, também ofertam chás a granel)

Fazer um bom café

 

6 dicas indispensáveis para fazer um ótimo café:

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  • o segredo do melhor café é comprar grãos e moer na hora da preparação, ou moído na hora. Se você tiver um moedor(moinho) em casa, basta regular conforme o tipo de preparo;
  • ao comprar o café já moído, observe a data de fabricação, quanto mais recente for, melhor;
  • as espécies mais conhecidas da planta de café são a arábica e robusta(também conhecida como conillon), os cafés especiais e gourmet são 100% arábica;
  • o café deve ser preparado com água filtrada ou mineral sem gás, aquecida e não fervida;
  • deve ser consumido logo após o preparo ou até uma hora depois;
  • se o objetivo for degustar o café, não misture nada na bebida, como açúcar, adoçante ou canela.

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Chef Nascimento, trajetória gastronômica e opiniões.

 Um Chef sempre sorridente! Foto: Pedro Milanez
Um Chef sempre sorridente!
foto: Pedro Milanez

Atividades profissionais

Ele foi um dos pioneiros no Brasil e o primeiro na região Sul a trabalhar com a Zitogastronomia, o estudo da cerveja sob a ótica gastronômica, quer dizer, é o ramo onde estuda-se a cerveja através de sua constituição, pela composição de ingredientes, de aromas, texturas, cores, sensações e combinações, considerando os aspectos culturais associados à ela. Chef Jorge Nascimento introduziu no curso de Gastronomia da Unisinos este conteúdo, desenvolvendo com os alunos o conhecimento das cervejas, seus estilos e oficinas práticas de harmonização. O Chef Jorge,  nascido em Porto Alegre, declara-se um autodidata, atuando no momento à frente da empresa Cozinhas do Mundo, atende hotéis e restaurantes como consultor em Alimentos e Bebidas.  É Professor do Curso Técnico de hotelaria da PUC-RS, e um dos pioneiros no ensino de gastronomia em nível superior no RS, estando por mais de uma década à frente de faculdades de hotelaria e gastronomia. Foi também o chef imagem do grupo Wal-Mart (rede Nacional e Mercadorama).  Hotel Everest, Rede Máster de Hotéis, Hotel Serrano, Hotel Casa da Montanha, Hotel Laje de Pedra, Mesa de Cinema, Hotel Dall’Onder, Grupo Caracol & Mamma Mia são alguns dos estabelecimentos por onde cozinhou, criou conceitos e desenvolveu consultorias.

Conte-nos um pouco de sua caminhada no mundo da gastronomia:

Iniciei aos 10 anos de idade, fazendo uma lasanha, junto com um amigo, desde então pilotei as panelas em refeições aos fins de semana, aprendendo as receitas através das mãos habilidosas das ancestrais da minha casa, mãe, tias, madrinhas, avós, que cozinhavam por prazer. Logo comecei a ler sobre o assunto e reproduzir receitas observando as técnicas, os erros e acertos, desta forma treinando e dominando os acertos e fazendo com que as minhas criações fossem exitosas.

Como manter um padrão de cozinha de excelência com as dificuldades operacionais existentes em hotéis de grande porte? Ou seja, estoques, fornecedores, fluxo de hóspedes, etc?

Sou cria da haute cuisine,  que faz a alta gastronomia, este foi o meu caminho profissional, como iniciei com receitas de família e o hábito da boa mesa na minha casa era repletos de clássicos, numa época em que a cozinha internacional dominava nos grandes restaurantes e hotéis do mundo. Acabei por ficar especialista em técnicas das cozinhas que geram comidas de excelência, nos dias de hoje que temos inúmeras instituições de gastronomia, deveríamos ter mão de obra de qualidade, mas por mais incrível que seja, a qualidade dos recursos humanos que estas instituições estão colocando no mercado tem um padrão muito inferior, não dominam as técnicas clássicas, não conseguem criar ou reproduzir blends de sabor corretos e equilibrados. Claro que estou falando de uma grande maioria, mas em contra ponto temos uma minoria que tem surgido no mercado, com uma qualidade muito boa, cozinheiros com muito talento que já despontam desde cedo. Quanto a matéria prima, nunca nos últimos 50 anos tivemos uma gama tão variada de produtos com tanta qualidade como hoje, e ainda nos últimos dez anos os produtos regionais brasileiros, disponíveis praticamente em todo o território nacional. Já os comensais estão bem mais abertos para novas experiências gastronômicas, algo  nunca foi visto anteriormente no Brasil.

Como definiria as características da sua cozinha/produção gastronômica?

Defino minha cozinha como “cozinhas do mundo”, tenho prática e conhecimento das principais cozinhas clássicas e contemporâneas do ocidente e do oriente, uma cozinha marcada pela técnica, aromas, blends de sabores. A minha assinatura gastronômica começa pela profusão de aromas, que na boca preservam seus sabores individuais, e que na mastigação se combinam formando outro agradável e surpreendente resultado.

Hoje o requinte da cozinha ainda exige uma importação de ingredientes ou é possível explorar a riqueza brasileira na criação dos pratos?

Aí temos dois momentos importantes para ter acesso aos produtos culinários do mundo,  o Presidente Collor de Melo e a abertura do mercado internacional no Brasil, que permitiu importações,  e o segundo, a crise do tigre asiático nos anos 90, que fez com que a industria nacional do alimento tivesse que se transformar, produzindo com maior qualidade. Hoje,  conseguimos fazer pratos sofisticados seja usando produtos de outros países,  bem como regionais aqui do Brasil, que por sinal andam muito em voga na cozinhas do mundo.

O que acha do movimento de produção de alimentos orgânicos, sem agrotóxicos? Tem dificuldades para utilizá-los?

É uma tendência e um comportamento de muitas pessoas hoje em dia, somos o que comemos e nesta época onde a indústria do alimento é tão cheia de agrotóxicos, rações para animais muito duvidosas, águas contaminadas, excesso de conservantes, agentes cancerígenos e etc. Temos hoje no Brasil mapas sobre onde encontramos produtos orgânicos, selos que garantem a procedência, mercados e lojas especializadas e sérias. Pretendendo ter um menu extenso e variado, ainda é um empecilho cozinhar 100% orgânico, mais sim hoje temos mais opções, possibilidades de excelente qualidade.

foto: Joana Moreira

Alguns  momentos marcantes de sua carreira, quais seriam?

Em minha trajetória já aconteciam nos anos 90, no Hotel Everest, em Porto Alegre, quando comandava um time de profissionais e o Restaurante Roff, realizando o evento “À Mesa com Roff”, que trouxe para o RS os mais renomados chefs do Brasil, considerado um marco definitivo para colocar o estado no mapa da gastronomia nacional e internacional. Além disso,  sobre os dois prêmios que minha equipe de alunos da Gastronomia da Unisinos ganhou, pois foi a primeira vez no Brasil que um curso de gastronomia ganhou um concurso internacional. Realizei o jantar na virada do século XX para o XXI, no hotel Casa da Montanha, no qual criei e executei o menu. Neste jantar, o pianista Arthur Moreira Lima tocou para os comensais. Outro momento  igualmente importante, foi o lançamento do  livro “Ocasiões”, que teve  edição esgotada.

Como foi a experiência de escrever um livro (Ocasiões Receitas Práticas e Dicas de Culinária para Todas Situações) e ver a edição se esgotar ? Quando virá o próximo?

O livro  Ocasiões foi um momento muito importante na minha vida profissional, momento que fiz uma ruptura de estilo, minha cozinha nesta época era de alta gastronomia e foi um desafio  fazer um livro de receitas, que fosse também um manual de boas maneiras e ensinasse as pessoas sobre ocasiões à mesa, como café da manhã, almoços frugais e formais, chá da tarde, lanches, drinks, coquetéis, ceias, enfim tudo que se vive à mesa. O livro está recheado de receitas que tem a minha história e memórias de família, lembranças de mesas que vivi desde crianças, viagens e amores da minha vida. Foi um marco, foi o livro mais roubado na feira do livro daquele ano e para época 8.000 edições  era um numero muito alto. Ainda há uns dois meses atrás, reli Ocasiões na integra e realmente ele é um retrato do estilo do ChefNascimento.   Ando pensando em escrever outros livros com esta característica,  de ser um guia,  para novos casais e solteiros que querem comer bem.

Qual é seu prato preferido?

São alguns, mas amo guisadinho de batatas com molho inglês, que me lembro até hoje estar presente na mesa da minha infância,  também nunca canso de camarão à milanesa, bife à milanesa com salada de maionese caseira, foie  gras grileé com vinagrete de suco de uvas serranas e tomilho, mero ao molho de champanha e caviar, enfim amo boa comida, seja ela simples,  frugal ou sofisticada.

E qual mais gosta de cozinhar?

De um tudo: mas caças e frutos do mar são meus prediletos.

Qual é sua principal dica para quem está começando a cozinhar?

Ler, compreender a receita, enxergar nela as técnicas e de que forma são norteadas pela química, a física e a alquimia, e executar os clássicos, observar se eles tiveram êxitos. Caso não, analisar e ver onde foi o erro e por quê. Refazer com os novos caminhos traçados e novamente analisar. Cozinhar é uma engenharia de sabor e como toda engenharia é preciso conduzir a obra ao êxito, e claro, como tudo que se faz bem, fazer com alma e amor. Comece pelo simples e domine isto, a partir dai aumente as complexidades e domine-as, após isto o céu será o limite.

Qual é sua principal dica para quem está pensando em fazer carreira na área da gastronomia?

Trabalhar e estar a onde precisam da gente, traçar um planejamento dos locais e estilos que deve vivenciar, e quando lá estiver fazer o estilo que esta sendo pedido, exatamente como esta sendo pedido, observando tudo, não só o ato de cozinhar mas tudo. Depois disto começar a definir qual o seu estilo, esta fase é um amadurecimento profissional que acontece de dentro para fora e que nosso ídolos nos influenciarão,  mas o estilo será único, a marca de cada cozinheiro.

Pergunta da Tia Nastácia: Você usa colher de pau para cozinhar?

Adoro, em casa tenho dezenas, já cheguei a ter centenas. Nas cozinhas profissionais tive que trocar pelas de silicone.

Pergunta da Dona Benta: quais os países que você visitou e quais as influências para sua atuação na gastronomia?

Alguns, como França, Itália, Uruguay, Argentina, Alemanha, Turquia. Arábia, Índia. Foram grandes experiências, ensinamentos e garimpagem de insumos, cultura, arte, religião, tradição, inovação, evolução da minha cozinha e estilo de vida.

Uma sugestão de prato para o inverno gaúcho e uma harmonização com bebida: (rola a receita?)

Adoro língua(bovina), criei esta receita quando era Chef Executive da rede Master Hotéis, e um dos estabelecimentos era um tradicional restaurante do centro da capital do RS. Executivos, advogados, arquitetos, políticos, médicos e sobrenomes tradicionais freqüentavam diariamente os salões do restaurante, e acabei criando pratos com inspirações em comidas de inverno,  da comida regional do RS,  e esse prato de língua eu criei com inspiração, unindo duas receitas, uma de uma tia-avó minha e outra da família da minha mulher na época, claro que coloquei a assinatura do ChefNascimento nela, usando azeitonas verdes e vermouth,  uma bebida que gosto muito de colocar na panela. E as bebidas para harmonizar com esta  Língua ao molho de tomates e azeitonas verdes perfumada com vermute doce  recomendo Vinho Luar do Pampa Gewürztraminer , Vinho Rosé Routhier & Darricarrère Marie Gabi safra 2013 ou Espumante Extra Brut Campos de Cima. E para quem aprecia cervejas,  a Colorado Cauim (pilsen com leve amargor) ou a Labareda da Coruja, uma specialty beer (Keller) com pimenta.

foto: Fabrício Barreto
foto: Fabrício Barreto

 

“Cozinhar é uma engenharia de sabor e como toda engenharia é preciso conduzir a obra ao êxito, e claro, como tudo que se faz bem, fazer com alma e amor.”

 

 

Língua ao molho de tomates e azeitonas verdes perfumada com vermute doce

linguaReceita: Chef Jorge Nascimento

Ingredientes:

2 línguas limpas e cozidas cortadas em fatias não muito finas

700 ml de molho de tomates

2 folhas de louro

3 dentes de alho picados

2 cebolas médias bem picadas

100 gramas de azeitonas

50 ml de vermute doce

4 colheres de sopa de manjerona fresca

sal, pimenta-do-reino

óleo vegetal

Modo de fazer:

Numa panela esquente o óleo vegetal e doure as cebolas, o alho, as folhas de louro e as azeitonas, deixe refogar pôr uns 5 minutos. Adicione a língua e a manjerona, refogue pôr mais 5 minutos e adicione o molho de tomates, deixe ferver. Após a língua ferver coloque o vermute doce. Tempere com o sal e a pimenta-do-reino. Deixe ferver em fogo muito brando pôr uns 50 minutos. Retire do fogo e sirva acompanhado de purê de aipim enriquecido com nata fresca (creme de leite fresco), temperado com folhas de manjerona.

Sugestão de Bebidas para harmonizar

Vinhos: Luar do Pampa Gewürztraminer,  Rosé Routhier & Darricarrère Marie Gabi safra 2013 Espumante Extra Brut Campos de Cima.

Cervejas: Colorado Cauim ou Labareda Coruja.

Chá Aromatizado

chá abacaxí

2 colheres de sopa bem cheias de chá preto a granel

4 rodelas de abacaxi in natura, sem casca

casca de 1 laranja

4 rodelas de limão

cravos da índia e canela em pau à gosto

1 colher de sopa de essência de baunilha (opcional)

2 litros de água

Juntar todos os ingredientes em uma panela com a água (exceto o chá e a essência de baunilha),  depois que entrar  em ebulição, deixar ferver por 10 minutos. Após desligar o fogo e encerrar a fervura, juntar o chá  e a essência de baunilha, misturar bem, tampar a panela e deixar descansar para obter o sabor do chá preto, e finalmente, coar. Servir quente ou gelado.

Gastroliterário

“… Florência, a doceira famosa da casa. Incumbida de um tacho de cocada que fervia na cozinha, ela assomara à porta da copa, com a colher de pau em uma mão…”

José de Alencar, em O tronco do Ipê.

“Meu reino por…

Heróis ou anti-heróis trágicos, como o Ricardo III, de Shakespeare, poderão emendar: “…por um cavalo!”.

Otelo diria (porque na peça não disse): “…por um lenço de Desdêmona!”

Neste conjunto de crônicas que ora começo, me limito a dizer, mais prosaico:

“…por uma colher de pau!”

Porque a colher de pau foi o primeiro cetro que conheci.

Era o símbolo do poder sobre um reino: o da cozinha.

A cozinha de todas as alquimias, onde as coisas cruas se transformavam no esperado ou maldito alimento. Porque nem tudo o que vem da cozinha é desejado; algumas coisas são piores do que veneno, pela obrigação de comê-las quando não se quer, ou quando são detestadas.
 Flávio Aguiar*, em O reino da cozinha e a colher de pau,
in blogdaboitempo.com.br

*nasceu em Porto Alegre, em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, publica pela Editora Boitempo.  Colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A união das duas personagens…

A extrema bondade de Tia Nastácia dava-lhe, no contexto do Sítio do Picapau Amarelo, o verdadeiro ar de brasilidade, junto a uma Dona Benta de formação cultural europeia. Enquanto esta falava de Hans Staden, e apresentava aos netos a Mitologia Grega, foi pela boca de Tia Nastácia que dezenas de histórias do folclore brasileiro foram sendo narradas, com deleite, aos meninos do Sítio. Por seus lábios, personagens menosprezados do rico fabulário popular encontraram meios de chegar aos leitores mirins do Brasil, e Tia Nastácia tornou-se o centro das atenções, em “Histórias de tia Nastácia” – um dos livros da série.

Tia Nastácia é a personagem que representa a sabedoria popular, a sabedoria do povo. Negra, de beiços grandes, assustada e medrosa, uma cozinheira de mão cheia. Sem os seus quitutes, a vida no Sítio não teria “sabor”…  juntas 2
Quando Lobato escreveu as histórias do Sítio do Picapau Amarelo, entre 1920 e 1947, as avós da elite brasileira não iam para a cozinha. Esse era o lugar das empregadas, quase sempre negras jogadas na pobreza após a Abolição da Escravatura.
Qualquer leitor das obras de Monteiro Lobato sabe que Tia Nastácia é uma grande cozinheira. Mas os livros que os escritores brasileiros publicam sobre culinária traz, na capa, o nome de Dona Benta. Os produtos de culinária, carregam o nome de Dona Benta.
Daí a importância de mostrar às crianças as obras de Monteiro Lobato, para possibilitar a elas o contato com a verdadeira Dona Benta, a vovó coragem, a contadora de histórias, a mulher sábia e conhecedora do mundo e, também, discutir as referências feitas à Tia Nastácia, despertando a criticidade, e fazer como Lobato ensinou:  levar em consideração o ponto de vista do leitor, agora em suas próprias obras, afinal a literatura pode ser uma ferramenta importante na desconstrução de paradigmas e conceitos ditados pela sociedade, como o preconceito racial e a desvalorização feminina, que demoram a sair de cena na vida real.
Desse balaio o que vale salvar mesmo é a herança culinária. A presença constante das negras na cozinha do Brasil Colônia nos deixou uma cozinha rica, mixada, plural. O encontro da mandioca com as receitas portuguesas, as adaptações dos pratos afros aos hábitos europeus e ingredientes locais. O sincretismo religioso levado à mesa de todos os santos. Abre uma nova perspectiva de respeito a todas as Tias Nastácias que ajudaram a fazer da cozinha brasileira o que ela é hoje.
Mas a figura de Tia Nastácia é mais do que a de uma mera cozinheira internada no lado B da casa.
Ela e Dona Benta são a união do conhecimento popular e do erudito.
É difícil imaginar as histórias de uma sem os quitutes da outra.

E comida, todo chef sabe, é algo carregado de história e conhecimento.

Monteiro Lobato dizia que cozinhar bem era um dom inato.
As boas cozinheiras seriam produtoras de ideias, como os artistas.
As outras, meras copiadoras de receitas.


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As atrizes Zilka Salabarry (1917-2005) e Jacyra Sampaio (1922-1988),caracterizadas como as personagens Dona Benta e Tia Nastácia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

 

Foram referência para este post os seguintes textos:

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Tia_Nastácia

www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/sitiodopicapau/tianast.html

www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/…/donabent.html

www.memoriaviva.com.br/mlobato/turma.htm

 

 

Tia Nastácia

Tia Nastácia é uma personagem da obra de Monteiro Lobato.nastacia

Monteiro Lobato criou Tia Nastácia com habilidades mágicas na cozinha. Ela é uma profunda conhecedora dos sabores e das tradições populares do Brasil. Para Narizinho e Pedrinho, frita bolinhos de chuva, assa biscoitos, cozinha lentamente a geléia feita com as jabuticabas plantadas no quintal. Foi de suas mãos que surgiu a boneca Emília, a irreverente, tagarela e espevitada boneca de macela, aquela que diz que a única razão que conhece para se tornar humana é comer a gemada preparada pela cozinheira: “É amarelinha e parece aveludada”, explica a boneca.
Quando vivo, Monteiro Lobato disse ao jornalista Silveira Peixoto,em entrevista para a Gazeta-Magazine em 1943, que a personagem de seus livros foi inspirada em uma mulher chamada Anastácia, que trabalhava em sua casa como cozinheira, e babá de seus filhos. A “Anastácia real” é descrita como uma negra alta, magra, de canelas e punhos finos, um personagem com características mais próximas da realidade das trabalhadoras negras, mas que não deixa de ser um retrato lamentável de sua condição na sociedade.
Nas antigas casas de fazenda, como em muitas nas cidades, era comum a figura da velha matrona negra, solteirona, solícita e de pouca instrução.
A figura de Tia Nastácia na maioria das ilustrações dos livros de Lobato, lembra um pouco um antigo estereótipo conhecido nos Estados Unidos como “Mammy” hoje em dia considerado racista, geralmente representado por uma mulher gorda de pele escura, vestindo um avental com um lenço na cabeça, que normalmente é uma empregada doméstica, cozinheira, costureira ou enfermeira. Este estereótipo aparece em alguns desenhos animados antigos, como em um desenho da Disney de 1935 chamado “Os Três Gatinhos Orfãos” (Three Orphan Kittens), nos clássicos desenhos de Tom e Jerry dos anos 40 e peças publicitárias da época.

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A Tia Nastácia é essencial na obra do Lobato. É quem transmite o conhecimento popular, quem dá acolhimento e aconchego — explica Márcia Camargo, pesquisadora e biógrafa do escritor. — Sua comida é o elemento de sustentação, como um fio condutor dessas histórias infantis. Juntas, ela e Dona Benta são as líderes da república matriarcal que é o sítio, algo raro no início do século XX. A prova do talento culinário de Tia Nastácia está na sua capacidade de transformar pratos corriqueiros em pequenas maravilhas. O café quentinho com o bolo de fubá macio que são oferecidos às visitas no sítio, e sempre elogiados. A cocada, em três cores: branco, queimado e um inusitado cor-de-rosa. Ou, mais uma vez, os bolinhos de chuva, que ela fritou até mesmo para São Jorge (e ele adorou) quando visitou a Lua no livro “Viagem ao céu”.
Como toda grande cozinheira, Tia Nastácia também gosta de experimentar. Em “Geografia de Dona Benta”, os moradores do sítio decidem fazer uma viagem de volta ao mundo. No percurso, ela recolhe novos ingredientes para testar em sua cozinha: azeite de dendê na Bahia, peixes-voadores nas Antilhas, broto de bambu na China, frutas no Nordeste e na Amazônia. Tia Nastácia, veja só, foi precursora de Alex Atala e Roland Villard.
A dimensão mágica da comida, tão importante na infância, era dada por ela.
No conto “O Minotauro”, Tia Nastácia está na Ilha de Creta. É refém da criatura mítica, com corpo de homem e cabeça de touro, que habita o Labirinto do rei Minos. O feroz Minotauro devorava seres humanos para sobreviver, mas desiste ao experimentar um bolinho de chuva preparado pela cozinheira. Ele poupa a vida de Tia Nastácia, que é salva por Pedrinho.

O talento culinário derrota a fera.

Foram referência para este post os seguintes textos:

www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/sitiodopicapau/tianast.html

www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/…/donabent.html

www.memoriaviva.com.br/mlobato/turma.htm

http://oglobo.globo.com/gastronomia/no-mes-das-criancas-analisamos-cozinha-das-obras-de-monteiro-lobato

Dona Benta

dbentaDona Benta Encerrabodes de Oliveira, seu nome completo,
é uma personagem da obra de Monteiro Lobato, talvez uma das mais célebres personagens da literatura infantil brasileira Seu nome inspirou livros de receitas culinárias, marca de farinha entre outros produtos. É uma mulher idosa que possui dois netos, Lúcia (Narizinho) e Pedrinho. Dona do Sítio do Picapau Amarelo, ela se diverte muito com os conflitos das tramas infantis. Muito sabida, sempre ensinando coisas novas aos netos e informando-os sobre a cultura do Brasil e do mundo. Solitária, mora apenas com sua ama Tia Nastácia e sua neta Narizinho e os bichos do sítio, recebendo a visita de Pedrinho, que mora na cidade grande, sempre que este tira férias da escola. Viúva de um grande senhor do engenho, sua paixão são os livros.
Em Dona Benta podemos ver uma projeção de Lobato, o seu lado sóbrio, sábio e bem comportado, projeção já sugerida a partir da identidade dos nomes José Bento/ Benta. Como a boa senhora, Monteiro Lobato também tinha um lado simples e o outro erudito. Proprietário rural e amante dos livros como Dona Benta, era aberto a todas as áreas do saber e, mais do que isso, era uma pessoa que fazia circular o conhecimento, empenhando-se em partilhar suas descobertas e leituras e fazia isso não só com seus pares, mas principalmente com os leitores em formação. Leitores que formam leitores, eis uma boa definição para Lobato e Dona Benta.
Empenhada por ensinar as crianças, D. Benta valia-se de uma linguagem simples, fácil de ser apreendida, usava o vocabulário dos netos para ensinar-lhes as ciências, para explicar-lhes fenômenos que ocorriam no cotidiano, assim, enquanto a Tia Nastácia sabia explicá-los pelo seu senso-comum, Dona Benta mostrava o lado científico das coisas.
Dona Benta pode ser lida como um espelho de seu criador, por representar o desejo de liberdade de expressão, de propagação do conhecimento e pela sede de transformar as crianças por meio da palavra.
Outra leitura que se torna possível é a Dona Benta como uma mulher coragem, personagem criada em meio a um contexto extremamente machista e que consegue “mandar seu recado” de que lugar de mulher é entre os livros, adquirindo conhecimentos e sendo independente e ativa na sociedade.
Temos ainda a vovó Benta contadora de histórias, fascinada pelas histórias das crianças, instigadora da imaginação livre de “podas”, conhecedora do universo infantil.