A união das duas personagens…

A extrema bondade de Tia Nastácia dava-lhe, no contexto do Sítio do Picapau Amarelo, o verdadeiro ar de brasilidade, junto a uma Dona Benta de formação cultural europeia. Enquanto esta falava de Hans Staden, e apresentava aos netos a Mitologia Grega, foi pela boca de Tia Nastácia que dezenas de histórias do folclore brasileiro foram sendo narradas, com deleite, aos meninos do Sítio. Por seus lábios, personagens menosprezados do rico fabulário popular encontraram meios de chegar aos leitores mirins do Brasil, e Tia Nastácia tornou-se o centro das atenções, em “Histórias de tia Nastácia” – um dos livros da série.

Tia Nastácia é a personagem que representa a sabedoria popular, a sabedoria do povo. Negra, de beiços grandes, assustada e medrosa, uma cozinheira de mão cheia. Sem os seus quitutes, a vida no Sítio não teria “sabor”…  juntas 2
Quando Lobato escreveu as histórias do Sítio do Picapau Amarelo, entre 1920 e 1947, as avós da elite brasileira não iam para a cozinha. Esse era o lugar das empregadas, quase sempre negras jogadas na pobreza após a Abolição da Escravatura.
Qualquer leitor das obras de Monteiro Lobato sabe que Tia Nastácia é uma grande cozinheira. Mas os livros que os escritores brasileiros publicam sobre culinária traz, na capa, o nome de Dona Benta. Os produtos de culinária, carregam o nome de Dona Benta.
Daí a importância de mostrar às crianças as obras de Monteiro Lobato, para possibilitar a elas o contato com a verdadeira Dona Benta, a vovó coragem, a contadora de histórias, a mulher sábia e conhecedora do mundo e, também, discutir as referências feitas à Tia Nastácia, despertando a criticidade, e fazer como Lobato ensinou:  levar em consideração o ponto de vista do leitor, agora em suas próprias obras, afinal a literatura pode ser uma ferramenta importante na desconstrução de paradigmas e conceitos ditados pela sociedade, como o preconceito racial e a desvalorização feminina, que demoram a sair de cena na vida real.
Desse balaio o que vale salvar mesmo é a herança culinária. A presença constante das negras na cozinha do Brasil Colônia nos deixou uma cozinha rica, mixada, plural. O encontro da mandioca com as receitas portuguesas, as adaptações dos pratos afros aos hábitos europeus e ingredientes locais. O sincretismo religioso levado à mesa de todos os santos. Abre uma nova perspectiva de respeito a todas as Tias Nastácias que ajudaram a fazer da cozinha brasileira o que ela é hoje.
Mas a figura de Tia Nastácia é mais do que a de uma mera cozinheira internada no lado B da casa.
Ela e Dona Benta são a união do conhecimento popular e do erudito.
É difícil imaginar as histórias de uma sem os quitutes da outra.

E comida, todo chef sabe, é algo carregado de história e conhecimento.

Monteiro Lobato dizia que cozinhar bem era um dom inato.
As boas cozinheiras seriam produtoras de ideias, como os artistas.
As outras, meras copiadoras de receitas.


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As atrizes Zilka Salabarry (1917-2005) e Jacyra Sampaio (1922-1988),caracterizadas como as personagens Dona Benta e Tia Nastácia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

 

Foram referência para este post os seguintes textos:

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Tia_Nastácia

www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/sitiodopicapau/tianast.html

www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/…/donabent.html

www.memoriaviva.com.br/mlobato/turma.htm

 

 

Tia Nastácia

Tia Nastácia é uma personagem da obra de Monteiro Lobato.nastacia

Monteiro Lobato criou Tia Nastácia com habilidades mágicas na cozinha. Ela é uma profunda conhecedora dos sabores e das tradições populares do Brasil. Para Narizinho e Pedrinho, frita bolinhos de chuva, assa biscoitos, cozinha lentamente a geléia feita com as jabuticabas plantadas no quintal. Foi de suas mãos que surgiu a boneca Emília, a irreverente, tagarela e espevitada boneca de macela, aquela que diz que a única razão que conhece para se tornar humana é comer a gemada preparada pela cozinheira: “É amarelinha e parece aveludada”, explica a boneca.
Quando vivo, Monteiro Lobato disse ao jornalista Silveira Peixoto,em entrevista para a Gazeta-Magazine em 1943, que a personagem de seus livros foi inspirada em uma mulher chamada Anastácia, que trabalhava em sua casa como cozinheira, e babá de seus filhos. A “Anastácia real” é descrita como uma negra alta, magra, de canelas e punhos finos, um personagem com características mais próximas da realidade das trabalhadoras negras, mas que não deixa de ser um retrato lamentável de sua condição na sociedade.
Nas antigas casas de fazenda, como em muitas nas cidades, era comum a figura da velha matrona negra, solteirona, solícita e de pouca instrução.
A figura de Tia Nastácia na maioria das ilustrações dos livros de Lobato, lembra um pouco um antigo estereótipo conhecido nos Estados Unidos como “Mammy” hoje em dia considerado racista, geralmente representado por uma mulher gorda de pele escura, vestindo um avental com um lenço na cabeça, que normalmente é uma empregada doméstica, cozinheira, costureira ou enfermeira. Este estereótipo aparece em alguns desenhos animados antigos, como em um desenho da Disney de 1935 chamado “Os Três Gatinhos Orfãos” (Three Orphan Kittens), nos clássicos desenhos de Tom e Jerry dos anos 40 e peças publicitárias da época.

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A Tia Nastácia é essencial na obra do Lobato. É quem transmite o conhecimento popular, quem dá acolhimento e aconchego — explica Márcia Camargo, pesquisadora e biógrafa do escritor. — Sua comida é o elemento de sustentação, como um fio condutor dessas histórias infantis. Juntas, ela e Dona Benta são as líderes da república matriarcal que é o sítio, algo raro no início do século XX. A prova do talento culinário de Tia Nastácia está na sua capacidade de transformar pratos corriqueiros em pequenas maravilhas. O café quentinho com o bolo de fubá macio que são oferecidos às visitas no sítio, e sempre elogiados. A cocada, em três cores: branco, queimado e um inusitado cor-de-rosa. Ou, mais uma vez, os bolinhos de chuva, que ela fritou até mesmo para São Jorge (e ele adorou) quando visitou a Lua no livro “Viagem ao céu”.
Como toda grande cozinheira, Tia Nastácia também gosta de experimentar. Em “Geografia de Dona Benta”, os moradores do sítio decidem fazer uma viagem de volta ao mundo. No percurso, ela recolhe novos ingredientes para testar em sua cozinha: azeite de dendê na Bahia, peixes-voadores nas Antilhas, broto de bambu na China, frutas no Nordeste e na Amazônia. Tia Nastácia, veja só, foi precursora de Alex Atala e Roland Villard.
A dimensão mágica da comida, tão importante na infância, era dada por ela.
No conto “O Minotauro”, Tia Nastácia está na Ilha de Creta. É refém da criatura mítica, com corpo de homem e cabeça de touro, que habita o Labirinto do rei Minos. O feroz Minotauro devorava seres humanos para sobreviver, mas desiste ao experimentar um bolinho de chuva preparado pela cozinheira. Ele poupa a vida de Tia Nastácia, que é salva por Pedrinho.

O talento culinário derrota a fera.

Foram referência para este post os seguintes textos:

www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/sitiodopicapau/tianast.html

www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/…/donabent.html

www.memoriaviva.com.br/mlobato/turma.htm

http://oglobo.globo.com/gastronomia/no-mes-das-criancas-analisamos-cozinha-das-obras-de-monteiro-lobato

Dona Benta

dbentaDona Benta Encerrabodes de Oliveira, seu nome completo,
é uma personagem da obra de Monteiro Lobato, talvez uma das mais célebres personagens da literatura infantil brasileira Seu nome inspirou livros de receitas culinárias, marca de farinha entre outros produtos. É uma mulher idosa que possui dois netos, Lúcia (Narizinho) e Pedrinho. Dona do Sítio do Picapau Amarelo, ela se diverte muito com os conflitos das tramas infantis. Muito sabida, sempre ensinando coisas novas aos netos e informando-os sobre a cultura do Brasil e do mundo. Solitária, mora apenas com sua ama Tia Nastácia e sua neta Narizinho e os bichos do sítio, recebendo a visita de Pedrinho, que mora na cidade grande, sempre que este tira férias da escola. Viúva de um grande senhor do engenho, sua paixão são os livros.
Em Dona Benta podemos ver uma projeção de Lobato, o seu lado sóbrio, sábio e bem comportado, projeção já sugerida a partir da identidade dos nomes José Bento/ Benta. Como a boa senhora, Monteiro Lobato também tinha um lado simples e o outro erudito. Proprietário rural e amante dos livros como Dona Benta, era aberto a todas as áreas do saber e, mais do que isso, era uma pessoa que fazia circular o conhecimento, empenhando-se em partilhar suas descobertas e leituras e fazia isso não só com seus pares, mas principalmente com os leitores em formação. Leitores que formam leitores, eis uma boa definição para Lobato e Dona Benta.
Empenhada por ensinar as crianças, D. Benta valia-se de uma linguagem simples, fácil de ser apreendida, usava o vocabulário dos netos para ensinar-lhes as ciências, para explicar-lhes fenômenos que ocorriam no cotidiano, assim, enquanto a Tia Nastácia sabia explicá-los pelo seu senso-comum, Dona Benta mostrava o lado científico das coisas.
Dona Benta pode ser lida como um espelho de seu criador, por representar o desejo de liberdade de expressão, de propagação do conhecimento e pela sede de transformar as crianças por meio da palavra.
Outra leitura que se torna possível é a Dona Benta como uma mulher coragem, personagem criada em meio a um contexto extremamente machista e que consegue “mandar seu recado” de que lugar de mulher é entre os livros, adquirindo conhecimentos e sendo independente e ativa na sociedade.
Temos ainda a vovó Benta contadora de histórias, fascinada pelas histórias das crianças, instigadora da imaginação livre de “podas”, conhecedora do universo infantil.