Gastroliterário

“… Florência, a doceira famosa da casa. Incumbida de um tacho de cocada que fervia na cozinha, ela assomara à porta da copa, com a colher de pau em uma mão…”

José de Alencar, em O tronco do Ipê.

“Meu reino por…

Heróis ou anti-heróis trágicos, como o Ricardo III, de Shakespeare, poderão emendar: “…por um cavalo!”.

Otelo diria (porque na peça não disse): “…por um lenço de Desdêmona!”

Neste conjunto de crônicas que ora começo, me limito a dizer, mais prosaico:

“…por uma colher de pau!”

Porque a colher de pau foi o primeiro cetro que conheci.

Era o símbolo do poder sobre um reino: o da cozinha.

A cozinha de todas as alquimias, onde as coisas cruas se transformavam no esperado ou maldito alimento. Porque nem tudo o que vem da cozinha é desejado; algumas coisas são piores do que veneno, pela obrigação de comê-las quando não se quer, ou quando são detestadas.
 Flávio Aguiar*, em O reino da cozinha e a colher de pau,
in blogdaboitempo.com.br

*nasceu em Porto Alegre, em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, publica pela Editora Boitempo.  Colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.